Terça-feira, Abril 17, 2012

Ektom (11) Onde ninguém quer o que quer e tudo recomeça

Quando concluiram que podia estar iminente um desastre de proporções inimagináveis os chefes de ambos os grupos começaram a interrogar-se se não teriam ido longe de mais, sentindo-se, cada um à sua maneira, a perder o controle das coisas.
A verdade é que poucos tinham consciência do que efectivamente se estava a passar e a partir de determinada altura foi óbvio que mesmo os mais avisados estavam a ser ultrapassados pelos acontecimentos. A teia urdida primeiro, alimentando-se de si mesma depois, começou a ser tão grande que acabou por se transformar numa bola gigante e incontrolável. Quando o céptico e o sonhador perceberam isso, tentaram um esforço derradeiro de entendimento e através de mensageiros combinaram um encontro secreto.
É céptico quem toma a palavra.
"É evidente que não só não aceitaremos o pregador como já não é possível a sua saída de Ektom. Ainda que esquecêssemos tudo o que se passou, se ele saísse daqui viriam outros e tudo recomeçaria. Por isso proponho que esqueçamos tudo o que se passou e que recomecemos como se nada tivesse acontecido e aprisionemos o pregador num lugar incomunicável para sempre."
"É uma proposta que, apesar de tudo e em nome de todos os habitantes de Ektom não me repugnaria aceitar, mas não vês que isso é impossível? O facto de fingir que não aconteceu nada não elimina os sentimentos das pessoas e esses estão lá, dentro de cada uma e jamais poderá ser silenciado. Mesmo sem o pregador mais cedo ou mais tarde tudo voltaria ao de cima. Não posso aceitar a tua proposta."
"Então que fazer? Tens alguma ideia?"
"Vamos deixar os acontecimentos seguirem o seu rumo normal."
"E não vês que isso também não é possível? Como não fazer nada ante a ameaça de destruição que paira sobre o nosso modo de vida?"
"E se intimamente for esse o desejo das pessoas?"
"Mas não é! Eu sei que não é e farei tudo para que não seja."
"Também eu farei tudo para que possam finalmente ser seres livres na busca da verdade."
Um silêncio opressivo apossa-se de ambos. Depois com um longo olhar misto de hostilidade e resignação cada um afasta-se rumo ao seu reduto.
Naquele olhar estava decidido que o único caminho era o da luta armada.
Mesmo assim, num último acto de contrição o sonhador impôs a si mesmo que a iniciativa não partisse do seu grupo. Estariam prontos para a luta, mas não a iniciariam. Armados com as armas possíveis dispuseram-se no terreno de uma forma defensiva, com sentinelas nos pontos mais elevados e um medo incontornável dentro de cada um.
O céptico chegou com grande agitação ao Centro. Sendo quem mais desejava o confronto era, também um dos que mais o temia. Por várias razões mas principalmente por não saber o que fazer com a vitória que tinha a certeza ir ser sua. Encurralado por força dos acontecimentos era principalmente um ser encurralado dentro de si mesmo.
"Como era de esperar a minha proposta foi recusada. Assim não nos deixaram outra alternativa. Façamos-lhe a vontade. Mas que fique bem claro que fizemos todos os esforços para evitar um conflito aberto."
Tratados os últimos preparativos ficou combinado que ao amanhecer seria desencadeado um ataque de surpresa. A revolução seria esmagada sem dó nem piedade. Estripado o mal tudo voltaria à normalidade. Este era pelo menos o desejo dos que defendiam a acomodação a qualquer preço.
Aqui ali algumas escaramuças isoladas davam o tom para a grande batalha.
Conhecedores do plano do grupo do céptico os apaniguados do sonhador dividiram-se ante a atitude a tomar. Enquanto uns continuavam a defender que não deviam tomar a iniciativa, outros pensavam que também devia ser usada a surpresa. Após alguma discussão e contra a vontade expressa do sonhador foi decidido inverter o factor surpresa. Assim pela calada da noite sairam furtivamente do acampamento e foram postar-se à beira do caminho por onde passaria o grupo adversário.
A partir de determinados limites a defesa da razão não obedece a razão nenhuma porque a necessidade de se impor anula a própria razão.
Arrastados para um confronto em que ambos julgam ter a razão, ambos a perderam, porque emboscadas, golpes de surpresa, embustes e traições não são fruto de um pensamento razoável, são já o fruto irreversível da incerteza e do desnorte, estes sim, valores próprios de homem.
Ao amanhecer o grupo do céptico avança silenciosamente na direcção do inimigo. O dia começa a clarear quando, ao atingirem os limites da aldeia são avistados pelo grupo contrário. Preparam-se as armas. Muitos sustêm a respiração numa tentativa inútil de não fazerem qualquer ruído. O inimigo avança também o mais silencioso possível e aproxima-se cada vez mais. Mais uns metros e...
Sobre o que aconteceu a seguir pouco ou nada se sabe, razão pela qual, à semelhança do que quase sempre acontece, existem mil e uma explicações, cada uma mais verdadeira que a outra.
Uns dizem que o dia soalheiro ficou de repente negro como breu e que em poucos instantes se desencadeou uma tempestade terrível.
Outros que um barulho ensurdecedor atruou os ares, imoblizando todos os que, boquiabertos se imobilizaram temerosos.
Houve quem dissesse que viu claramente a figura de um rosto humano, espécie de pássaro, mas que pássaro não era.
Também houve quem visse claramente a figura de Deus, Ele mesmo, deitando chispas pelos olhos e segurando na mão direita um bastão que vomitava fogo.
Ou então quem tivesse a certeza que de o diabo se tratava e que o dito, enquanto se ria com desdém conseguia destruir tudo onde a vista fixava.…
Mas a versão mais consistente é a que diz que, saídos de lado nenhum, de repente os céus se encheram de anjos-guerreiros, feitos gémeos de mães diferentes, uns todos vestidos de branco e outros todos de preto, que, num ápice, se envolveram numa mortífera batalha aérea.
E então aconteceu uma coisa espantosa, nunca explicada até aos dias de hoje.
Logo que a batalha começou foi como se os grupos rivais em terra não passassem de marionetas que replicavam na perfeição os gestos dos anjos no céu.
Bailado estranho, tão simples como tentar voar com os pés assentes em terra ou andar ao compasso do bater das asas.
O que quer que tenha acontecido a verdade (a verdadeira) foi que, em poucos minutos tudo ficou reduzido a escombros e pó!
Depois o silêncio!
Total!
Passado algum tempo aqui e ali algo começa a mexer lentamente por entre os escombros. Aos poucos alguns corpos vão- levantando.
São os sobreviventes.
Poucos.
Estonteados juntam-se em torno de uma habitação que quase por milagre ficou intacta.
Feita a contagem sobreviveram sete pessoas e alguns animais.
Foi quando, vinda de lado nenhum, se ouviu o que pareceu uma voz, ainda que pudesse ser outra coisa qualquer, ou mesmo não ser nada.
O que quer que fosse ficou gravado para todo o sempre no mais intimo de cada um daqueles sobreviventes:
“Ide e recomeçai!”


F I M?

Segunda-feira, Abril 02, 2012

Ektom (10) - A Razão da Força

Gorada a hipótese de fazer vingar as suas ideias através de uma votação o céptico sente que tem de iniciar uma nova estratégica. Até porque a situação e, neste momento, muito diferente. Depois da cena de pancadaria desencadeada no Centro ficou claro que nada pode ser solucionado a não ser pela força. E para isso a antecipação é fundamental. Por isso logo que saiu do Centro tratou de acautelar as acções que lhe pudessem dar vantagem em caso de conflito.
Em abono da verdade deve dizer-se que houve sempre uma certa divisão entre artesãos e agricultores. Os artesãos foram sempre mais materialistas, mais terra a terra, com um grande espirito comunitário é certo, mas com uma visão muito simplista da vida. Os agricultores por seu lado eram mais idealistas, mais individualistas, com uma certa noção metafísica da existência.
O contacto com a natureza teve sempre um efeito de nostalgia e desprendimento sobre os homens ao mesmo tempo que as suas tarefas lhes deixam quase sempre muito tempo para si mesmos, para se interrogarem e indagarem o mundo em redor. Os artesãos, por seu lado, mais ocupados habituaram-se a viver sem ter que pensar e a reagir a estímulos sem se preocuparem com porquês e para quês. O que aliado à satisfação plena das suas necessidades os transformou em seres acomodados, capazes de tudo para manterem essa situação.
Apesar destas diferenças nunca terem sido notórias enquanto tudo decorreu normalmente. Só a partir do momento em que surgiram as primeiras diferenças é que as contradições começaram a vir ao de cima.
"Bem, meus amigos, parece-me que a partir deste momento está mais claro que nunca que tudo não passa de uma enorme conspiração, cujos fins no fim serão compreendidos. A partir do que aconteceu hoje tudo pode acontecer e temos que nos preparar para todas as possibilidades. Proponho que todos os que tenham possibilidades de construir qualquer armamento o façam o mais rápido possível. No caso de ser necessário o uso da força é importante estarmos preparados o melhor possível. O importante é preservar o modo de vida de Ektom, porque todos sabemos que não é possível mudar para melhor. Nós conseguimos a perfeição e melhor não pode existir. Que nos interessa deus, supondo que existe? Que interessa a vida eterna, a paz para sempre? Quem é que quer a eternidade? Para quê?"
Um murmúrio de aprovação acolhe as ultimas palavras. Remetidos desde sempre a uma vida ociosa, sem sobressaltos, sempre igual, viram com apreensão a chegada do pregador, pelo que isso podia alterar o seu modo de vida. Não lhes interessavam as sensações, as emoções ou quaisquer manifestações do mesmo género. Pelo contrário, tinham medo delas. Cada dia devia ser igual ao anterior, como uma fotocópia de uma única vivência que depois, em cada dia, era exibida como se de um original se tratasse e era isso que desejavam acima de tudo.
Ao fim de algumas horas todos os homens estavam armados com as armas mais variadas e estranhas, no fundo, tudo o que foi possível construir com os recursos existentes.
Os argumentos do céptico apesar de alguns não os entenderem muito bem conseguem um eco muito forte. Entre outras coisas o facto de não estarem habituados a pensarem faz com que aceitem com facilidade o serem comandados. Quando o céptico explicou que talvez fosse necessário lutar alguns assustaram-se, mas quando lhes disse que estava em causa o seu modo de vida puseram de lado todos os receios e dispuseram-se a fazer tudo o que fosse necessário.
O homem é, na verdade um animal capaz dos maiores esforços para não fazer nada.
As informações que vão chegando tornam claro que o confronto é inevitável. Quando o niilismo atinge as pessoas só com dificuldade a consciência consegue impor-se.
Ainda assim passam vários dias sem que qualquer das partes se decida por qualquer acção. Os mensageiros continuam num vaivém continuo e cada uma das facções sabe tanto da outra como ela mesma, apesar disso agem como se as suas acções fossem as mais secretas de todas, como se uma identidade supra-irracional tivesse definitivamente tomado conta de todos eles.
A razão enquanto valor absoluto é uma abstracção e só isso explica que em tantos conflitos se defenda o uso da força, sabendo não só que não têm razão como podem ser destruídos por isso.
Além dos dois grupos mais ou menos definidos havia um outro maior que os dois juntos - o dos apanhados no meio - quase sempre o maioritário em qualquer conflito.
Entretanto todos estes acontecimentos começaram a ter reflexos na vida da aldeia. A alteração da ordem instituída alterou também comportamentos e todos se começaram a preocupar com o que os outros faziam. É fácil prever as consequências num sistema perfeito em que todos dependiam de todos. A anarquia como sistema ideal de organização social só consegue sobreviver na perfeição; se a cadeia se parte a perfeição transforma-se num ápice na desorganização absoluta.
E isto foi o que aconteceu em Ektom.
Logo que um elemento deixou de cumprir as suas tarefas todo o edifício ruiu e cada um passou a sobrepor os seus interesses aos da comunidade, no mínimo, aos do seu grupo. Um grupo passou a controlar os bens existentes no Centro e os de artesanato e o outro os bens agrícolas e a distribuição deixou de ser feita de modo equilibrado passando a ser feita arbitrariamente e ao sabor das conveniências do momento. A posse dos bens de consumo trouxe para a luta um elemento novo que em caso de conflito generalizado se podia mostrar decisivo.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

Ektom (9) A força da Razão

Quando, aproveitando a confusão e temendo que alguma coisa lhe pudesse acontecer, o sonhador e os amigos levaram o pregador para um local seguro. não tinham qualquer plano traçado. Mas era evidente que esse plano era cada vez mais importante, já não só como tentativa de defesa das suas ideias, mas, principalmente, como salvaguarda da integridade física.
O pregador esse sentia-se completamente ultrapassado pelos acontecimentos. Quando pensava ter descoberto um campo fértil e virgem de evangelização...
Enquanto se dirigiam para os terrenos de cultivo onde existiam umas pequenas cabanas para guardar as alfaias agrícolas, o sonhador ia tentando explicar ao pregador o que se estava a passar.
"Ektom é, desde há alguns séculos, um autêntico paraíso. Não temos fome, nem doenças, nem guerras ou qualquer dos males que, em tempos remotos, atingiram a humanidade. Mas o que é óptimo por um lado, por outro, transformou-nos em seres insensíveis, apáticos, neutralizados pela isenção das necessidades. Quando perguntaste se não possuímos qualquer religião, lembrei-me que na verdade não existe no sentido que lhe atribuis, mas de facto possuímos uma - a perfeição. E cultivamo-la com tal convicção que se tornou tabu falar do que quer que fosse que a pusesse em causa. Por isso quando alguém sentia qualquer dúvida nunca a manifestava por uma espécie de pudor auto-inculcado que não saberia explicar mas que estava bem dentro de cada um de nós. Mas se alguns se permitiam essas dúvidas interiores, outros, talvez a maioria, tinham-se acomodado por completo e não só não punham nada em causa como temiam que alguém o pudesse fazer; estavam de tal modo acomodados que não concebiam sequer a ideia de as coisas puderem ser de outro modo. Por isso o antagonismo que hoje pudeste presenciar não é de hoje e tu não és mais que o catalisador de algo que já existia e hoje extravasou. Agora precisamos analisar a situação com calma. Não sei como irão reagir quando derem pela tua falta, mas convém que tomemos algumas precauções."
O pequeno grupo tinha entretanto chegado junto de uma casota que, pela sua posição, foi escolhida para refúgio nos tempos mais próximos. Depois de instalados o sonhador pediu a um dos companheiros que voltasse discretamente à aldeia e tentasse averiguar como estavam as coisas.
O pregador, esse continuava a não entender muito bem o que se estava a passar.
"Mas porquê tanta intolerância, quando antes existia toda a tolerância possível?"
"O aumento da intolerância é directamente proporcional à incapacidade de entendimento. Quanto menos certezas, menos interessa o diálogo ainda que, infelizmente, sejam essas as pessoas que exteriorizam as maiores certezas. O que não acontece connosco que, neste momento, o que menos temos são certezas. Se já tínhamos muitas dúvidas agora ainda temos mais. Neste momento estamos abertos a discutir todas as possibilidades, só que não nos parece que essa seja a disposição de todos."
Passado algum tempo o mensageiro voltou da aldeia.
"Não consegui saber com precisão o que se está a passar, mas à primeira vista parece estarem a formar um grupo de combate. E estão à procura do pregador."
O sonhador já esperava qualquer coisa do género, mas não tão depressa. Os acontecimentos estavam a precipitar-se e parecia quererem resolver tudo o mais rapidamente possível. O que exigia uma resposta igualmente rápida.
"Quantas pessoas pensas que conseguiram reunir?"
"Até ao momento não muitas. Há muita expectativa, mas as pessoas não sabem ainda muito bem o que fazer."
"Mas mais cedo ou mais tarde terão que tomar partido, por isso é importante que saibam com a maior clareza o que se está a passar. E se forem informados por nós tanto melhor. Todos os que puderem vão aproveitar as próximas horas para tentar contactar o maior número de pessoas possível. Os outros vão ficar aqui o resto da noite. Ainda que pense que não vai acontecer nada nas próximas horas não pudemos descurar a protecção do pregador."
O pregador começava a sentir o incómodo de uma situação que o ultrapassava e cada vez entendia menos. Ele falava uma linguagem e todas aquelas pessoas outra completamente diferente. Como quer que fosse não lhe parecia que o que tinha acontecido justificasse a verdadeira batalha que via preparar.
"Continuo a não entender muito bem o que se está a passar."
"Não só tens que começar a tentar entender como a preocupar-te contigo mesmo. Vamos tentar defender-te o mais possível mas não sei até que ponto seremos capazes de o fazer. Mas, em termos de culpas não te preocupes demasiado, porque, mais cedo ou mais tarde, isto ou algo parecido iria acabar por acontecer. Tu limitaste-te a precipitar os acontecimentos, nada mais. Dentro de cada um de nós há muito que tudo se vinha desenhando, tomando forma, até que um dia acabaria por explodir."
O sonhador começa a ver tudo nítido à sua frente. É como se estivesse perante um enorme campo verdejante e bem no meio um enorme sulco por onde caminham todos os Ektomianos. De vez em quando alguns olham desconfiados para os lados, mas o sulco é tão profundo que não conseguem ver nada e os que vêm atrás logo os empurram e obrigam a seguir. A partir de determinada altura uns começam a vigiar os outros, não permitindo o mínimo deslize. Os que deixaram de pensar, não deixam que os outros pensem, senão têm que voltar a pensar de novo. E pensar cansa tanto! Agora atingido o cume do morro, ao olhar para trás o sonhador interroga-se em relação a tudo o que aconteceu. O sulco por onde caminharam todos estes séculos é uma parte insignificante de um enorme vale verdejante que se estende até perder de vista num desafio irrecusável. São tantas as possibilidades que quase tem medo da descoberta de tanta liberdade. Mas tem a certeza que é muito melhor todo o medo da liberdade que a tranquilidade da prisão.
"O que se está a passar é uma luta dentro de cada um. Incapazes de lutar consigo mesmos os homens têm necessidade de dar forma exterior à luta. Como se padecesses de um mal profundo e na impossibilidade de o curar tentasses destruir o causador do mal. Não passa de uma tentativa de transferência de culpa que não soluciona o problema, mas talvez te permita dormir descansado. É uma luta que ninguém pode ganhar, mas é uma luta inevitável."
Entretanto vão chegando diversos grupos de pessoas a quem o sonhador procura receber e explicar o melhor possível a situação. Quase todos os apoiantes do sonhador eram agricultores, os quais, em teoria, eram a maior parte, de qualquer modo, neste momento, era ainda demasiado cedo para fazer qualquer previsão quanto ao que se iria passar.
Ao amanhecer tinha sido reunido um grupo numeroso que apesar da falta de experiência nestas andanças acabara por se armar a si mesmo com os mais diversos meios. Quem não soubesse o que se estava a passar imaginaria com facilidade que não passavam de um grupo de camponeses a preparar-se para mais um dia de trabalho - uns empunhavam ancinhos, outros enxadas. pás, foices, enfim, tudo o que estava mais à mão e que não faziam a mínima ideia de como utilizar se e quando fosse necessário. Isso era um problema para resolver na altura própria.
O sonhador vai tentando explicar o inexplicável.
"É bom que saibam que estamos aqui reunidos para defender a liberdade. Infelizmente os acontecimentos precipitaram-se e, neste momento é imprevisível o que pode acontecer, por isso temos que estar preparados para tudo. Sabemos que a violência não conduz a lado algum, por isso esperamos que tal não aconteça. No entanto (e faço votos para que tal não aconteça) temos que estar preparados para tudo."
Um mensageiro mais atrasado chegou com mais alguns homens e as últimas noticias do aldeamento.
"O Centro está transformado em quartel general e estão a ser barricados todos os acessos. O céptico afirma para quem o quer ouvir que o facto de termos desaparecido com o pregador só confirma a sua ideia que tudo faz parte de um vasto plano, uma conspiração contra os verdadeiros ektomianos. A construção de armamento é intensa, no entanto, são bem menos do que nós."
"Não se iludam com o número porque vão estar de certeza melhor armados que nós. De qualquer modo continuo a acreditar mais na razão do que na força", acrescenta o sonhador.
Muitos estavam ali só por sua causa, por o saberem honesto e amigo da verdade.
"Nas próximas horas não vai acontecer nada de importante, por isso sugiro que descansemos. Vamos organizar grupos de vigilância e todos os outros podem dormir."
Apesar de dar mostras de uma calma contagiante, por dentro, o sonhador era um homem bem diferente. Há centenas de anos que nada acontecia em Ektom e só isso era suficiente para o inquietar, depois era tudo ainda muito confuso para conseguir ter uma ideia das consequências dos passos que estavam a ser dados de uma maneira tão precipitada.
Os homens aproveitaram o resto do dia para descansar enquanto tudo se mantém ainda muito esbatido. Neste momento não há qualquer divisão nítida entre os dois grupos e é frequente passarem pessoas de um grupo para o outro o que, por um lado, permite recolher mais informações, mas, por outro, faz com que tudo se torne ainda mais confuso.
Ektom prepara-se para viver um acontecimento que escapa ao espartilho de centenas e centenas de anos. Estarão os seus habitantes preparados para isso?

Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012

Ektom (8) - Os acomodados, os incomodados e Deus

A noite chegou no meio da maior ansiedade. Durante a tarde a noticia da chegada do pregador correu célere toda a aldeia de tal modo que ao fim do dia havia já inúmeras versões sobre a origem do pregador e sobre o que tinha sido dito. Por isso não admira que muito antes da hora marcada para a reunião o largo fronteiro ao Centro se encontrasse já repleto de gente. Ninguém queria perder o que quer que fosse e os que ainda não tinham visto o pregador não queriam perder a oportunidade.
Pela primeira vez na história de Ektom foi cancelada uma anulação. E pela simples razão que mais ninguém se lembrou de tal. Não era possível saber se isso traria algumas consequências, mas, neste momento, isso pouco importava.
Seguiram-se largos momentos de espera e impaciência. Os que ainda não tinham visto o pregador eram os mais impacientes.
Faltavam poucos minutos para as oito horas quando a figura imponente do pregador surgiu ao fim da rua. Como que por encanto todas as conversas cessaram e todos os olhares convergiram na sua direcção. Era um homem com mais de dois metros de altura, tinha ombros largos e sem ser magro as suas funções eram bem vincadas, sobressaindo os ossos temporais e um queixo firme; a sotaina até aos pés, o enorme chapéu de abas e uns pés grandes completavam o conjunto. Não admira que todos se tenham calado à sua passagem, já que a sua figura impunha respeito por si mesma. Foi no meio desse silêncio que atravessou todo o largo até à porta do Centro. Aqui aguardavam-no os mais velhos e todos os que se conseguiram aproximar.
"Você é que é o responsável?", pergunta o pregador a um do grupo que parecia destacar-se.
"Aqui somos todos responsáveis."
"Sim, sim. Não é isso que eu quero dizer. Quem é que dá as ordens?"
"Ordens, para quê? Aqui ninguém dá ordens."
"Mas em qualquer sociedade tem que haver uma pessoa ou um grupo de pessoas que tome as decisões nos momentos difíceis, que assuma a responsabilidade... enfim... um chefe. Não há outra maneira de dizer isto."
"Acho que entendi e a resposta é não. Não temos chefe nem precisamos!"
"Mas sem chefes nenhuma sociedade pode sobreviver."
"Acha-nos com aspecto de quem não sobreviveu?"
"Bem... não... mas..."
"Aqui cada um sabe exactamente o que tem que fazer e isso basta."
O pregador hesita. Não há dúvida que esta é uma situação diferente de todas as outras.
"Não há dúvida que a vossa é uma situação singular, mas a questão principal persiste - mesmo que seja possível viver sem chefes, já é totalmente impossível viver sem Deus. A vida sem Deus não só não é possível como não tem qualquer sentido."
"Deus, deus, deus! Mas afinal quem é deus? O que é que nós temos que ver com ele?"
O pregador hesita uma vez mais. Para si não existem quaisquer dúvidas, mas sente que ali tem que ter muito cuidado com as palavras.
"Vou tentar explicar. Penso que todas as pessoas, de um modo ou de outro, em algum momento das vossas vidas, já se interrogaram sobre o significado da existência. Nascer, viver e morrer, para quê? Qual o sentido das coisas se no fim nos transformarmos em pó e só pó? Sem principio nem fim nada fará sentido, as noções de certo e errado, de bom e de mau serão puros conceitos e tudo será permitido. Quando o homem se começa a interrogar, pergunta atrás de pergunta chega inevitavelmente à última pergunta : e no principio era o quê? Porque o problema não é o que existiu, existe ou vai existir; a grande questão é o que existia no principio de todas as coisas. Ou seja, o que é que existia quando não existia nada? Complicado? De modo algum. Deus! Deus é o principio e fim de todas as coisas, o bem supremo e único caminho possível para o homem."
Aqui chegado o burburinho na sala era tal que foi necessário ao mais velho, pela primeira vez na sua vida, quase gritar para conseguir alguma ordem na sala. E ele mesmo tomou a palavra.
"Com este barulho não conseguimos perceber nada. Quem desejar falar inscreve-se nesta mesa a fim de evitar mais confusões."
Surgiram de imediato inúmeras inscrições e o céptico conseguiu ser o primeiro a falar.
"Antes de mais parece-me que estamos a começar pelo fim. Acho que a primeira coisa a fazer é entender com quem estamos a falar. Quem é e de onde vem este homem? Como é que ele aparece aqui? Isto é que é preciso determinar antes de continuarmos. E se tudo isto não for obra do acaso, antes fizer parte de uma conspiração muito bem montada? Neste caso tudo muda de figura, não é? Por isso proponho que antes de mais esclareçamos quem é o pregador, de onde vem e o que pretende."
Um murmúrio de assentimento percorreu a assistência.
O mais velho retomou a palavra.
"Estamos de acordo. Deixemos então que o pregador nos esclareça em relação a essas questões."
"Não estou a perceber muito bem o que pretendem, mas respondo sem qualquer receio. É óbvio que a ideia de uma conspiração é um disparate. Eu faço parte de uma congregação religiosa, cuja missão é andar pelos cantos do mundo a espalhar a mensagem de Deus. Digamos que sou um mensageiro de Deus que mais não pretende que divulgar a sua doutrina. Encontrava-me completamente perdido nestas montanhas inóspitas e não sonhava que aqui pudesse existir qualquer tipo de vida até ver aparecer as primeiras casas da vossa aldeia. Esta é que é a verdade."
O céptico salta de imediato em defesa da sua tese.
"Não acredito. É mentira. Tudo isto não passa de uma conspiração em que alguns de nós estão metidos, ainda que neste momento não entenda muito bem porquê."
As últimas palavras são acompanhadas de algumas exclamações de perplexidade. O céptico não se atreve ainda a avançar com nomes, mas a reacção das pessoas agrada-lhe.
É o mais velho quem retoma de novo a palavra.
"O que acabas de dizer é muito grave e para poder ser considerado terás que mostrar provas do que afirmas. De qualquer modo penso que devíamos dar ao pregador a oportunidade de esclarecer as muitas questões que deixou no ar."
A ideia é aceite e o pregador retoma a palavra.
"A verdade é que a origem das nossas angústias, dos medos mais profundos, está no desconhecimento. Sem sabermos de onde vimos, não podemos saber para onde vamos e só em Deus é possível encontrar a resposta, porque todos somos seus filhos, criados à sua imagem e semelhança."
"Para quê?", grita alguém ao fundo da sala.
"Para quê, o quê?"
"Para que é que deus nos criou?"
"Ora... para... para o amarmos acima de todas as coisas!"
"Grande vaidoso!"
Uma risada geral acompanha a última frase. Nesta altura é mais ou menos evidente que ainda ninguém entendeu o que o pregador tem estado a tentar dizer. No entanto o pregador não é homem de desistir com facilidade.
"Não acredito que em toda a vossa vida nunca se tenham interrogado, uma vez que fosse, sobre o sentido da vida."
"E porque havíamos de fazer isso? O sentido da minha vida é fazer sapatos até aos duzentos e setenta e três anos. Que outro sentido preciso?"
"O do significado da existência. O homem existe porquê, para quê?"
"Segundo o que tu dizes porque deus o criou, ainda que não entenda muito bem porquê. Porque não acredito que estivesses a falar a sério quando disseste que deus criou o homem para o adorar, porque isso é um enorme disparate."
"Deus quis partilhar o bem sagrado da vida com alguém e criou o homem, mas deu-lhe liberdade de escolha. Deixou-o escolher entre a condenação e a salvação, indicando-lhe sempre o verdadeiro caminho a seguir."
"Tanto trabalho só para isso? Tudo o que tens dito soa mais a auto-satisfação que outra coisa."
"Que disparate! Deus é Deus e não precisa de justificar nada e muito menos de justificar-se."
"E porque não? Se só existisse deus como é que ele sabia que era deus?"
Aproveitando uma pequena pausa o céptico entra na discussão.
"Isto não passa tudo de uma enorme conspiração. Deus não existe!"
"Claro que existe! Sempre existiu!"
O sonhador entra no diálogo cruzado e começa a ser notório que a troca de ideias é entre si e o céptico.
"Como podes afirmar uma coisa dessas, tu que não sabes nada de nada? Não entendes que o pregador está a falar de coisas que é preciso sentir e nas quais a lógica não intervém. Acho que somos todos demasiado ignorantes no assunto e que devemos deixar o pregador explicar-se até ao fim."
O mais velho não perdeu o ensejo de acalmar os ânimos e pediu ao pregador que continuasse.
"O grande desafio que Deus lançou ao homem foi a liberdade que lhe deu de escolher o seu próprio caminho. Perguntam-me muitas vezes porque é que Deus não criou seres perfeitos ou porque não intervém de imediato face a qualquer cataclismo. Embora possa parecer uma crueldade a verdade é que isso é a consequência do grande desafio da liberdade. Se Deus interviesse em cada instante estaria a passar ao homem um atestado de menoridade, a transformá-lo numa criança mimada a quem todos auxiliam ao menor tropeção. Ora o grande desafio é deixar o homem por si mesmo encontrar o seu próprio caminho. O verdadeiro caminho que o levará de novo a Deus, à sua meta final - a perfeição”.
A perfeição uma vez mais. O sonhador não consegue evitar um arrepio estranho. ’Deve ser tão aborrecido ser deus, ver passar o tempo da eternidade, acabando sem nada que fazer. Terá deus necessidade de inventar coisas para fazer? Será por isso que inventou este e quem sabe outros homens? Assim sendo quererá mesmo que o homem atinja a perfeição? Ou estaremos condenados para todo o sempre a viver entre a necessidade imperiosa de a procurar e a impossibilidade de a atingir? Mas se assim for... será o homem uma criação cíclica cuja busca da perfeição acaba sempre em destruição, uma vez e outra e outra até ao infinito?... Mas... que disparate... claro que não!’
Entretanto o pregador continua a sua explicação.
“Só a perfeição em todas as coisas dará acesso ao reino de Deus. Os que fizerem da vida um hino de paz, bondade e amor irão para o reino dos céus, os outros sofrerão as agruras do purgatório.”
O céptico está cada vez mais farto de uma conversa da qual não entende nada.
“Mas o que é que nós temos que ver com isso?”
“Todos os homens são filhos de Deus, ainda que alguns pensem que não.”
“Mesmo que fosse como dizes, nós não precisamos de nada disso, porque nós já atingimos a perfeição.”
O sonhador não consegue resistir uma vez mais.
“Isso não é verdade! Continuas a falar de coisas que não entendes. Podes não acreditar, mas não podes proibir os outros de acreditarem.”
“Eu sabia! Eu sabia! Tudo isto não passa de uma conspiração. Não sei com que intenção, mas é evidente que alguns querem acabar com o actual modo de vida de Ektom. Então uniram-se a este pregador, que foram buscar não sei onde e agora tentam lançar a confusão para fazer parecer que tudo é obra do acaso. Esse tal deus é que de certeza não é culpado, pois só existe na vossa imaginação.”
“Mas qual conspiração? Tu estás doido? Se aqui há alguém a conspirar és tu. E sabes porquê? Porque tens medo. Medo de coisas que não entendes. Só pessoas com medo e sem vontade podem aceitar como normal a nossa perfeição. Que sentido tem a nossa existência? Pois não vês que é uma vida sem qualquer fim? Com o correr dos anos e o passar das gerações tornamo-nos seres neutros, sem vontade própria, sem qualquer objectivo. Isto é viver? É esta a vida que desejas?”
“É! É esta a vida que desejo! E porque não? Que tens tu e o teu pregador de novo para nos oferecer? Quimeras, só quimeras e no fim um paraíso igual à tua vida de hoje, onde ficarás para sempre. Para sempre! Isso é que eu não quero de certeza. E para que isso não aconteça só há uma solução!”
Entretanto o burburinho da sala ia aumentando e era cada vez mais difícil ouvir os argumentos de parte a parte. A custo o mais velho tenta impor a ordem.
“E qual é a solução?”
“É preciso esquecer por completo o dia de hoje e anular o pregador!”
Por momentos pairou o silêncio, como se não tivessem percebido as palavras do céptico. Depois começou tudo a falar ao mesmo tempo tornando impossível ouvir o que quer que fosse. Porque anular alguém deliberadamente era algo que nunca tinha passado pela cabeça de ninguém. Um acto tão natural como a anulação em tempo devido, assumia contornos de monstruosidade quando concebido fora desse tempo.
Durante muito tempo foi impossível travar todas as conversas cruzadas. Depois de anos e anos de total apatia, sem nada para dizer, todas aquelas pessoas descobriram de repente uma nova maneira de estar na vida - a das ideias contraditórias, das tomadas de posição. Assumido o desfazer da unanimidade todos pretendiam estar dentro da razão e todos desejavam manifestar os seus pontos de vista. A vontade ancestral de uns homens dominarem os outros estava a vir lentamente ao de cima, ainda que, para já, só no campo das ideias.
Por entre o tumulto é ainda o sonhador que se consegue fazer ouvir.
“Mas vocês vão permitir uma coisa destas? Será possível que não vejam que a única coisa que este homem pretende é dar-vos a possibilidade de escolher outro caminho? Porque havemos de rejeitar isso? Só porque alguns não o desejam? Não! Não podemos consentir isso!”
Um breve murmúrio de aprovação foi de imediato abafado pelos gritos de reprovação.
“Mas quem é que deseja outra vida? Será possível uma vida melhor que a nossa? Claro que não! E não vamos permitir que este homenzinho, aliado a alguns traidores, altere a nossa vida. Votemos a execução da anulação e acabemos com esta palhaçada de uma vez por todas!”
Enquanto a disputa sobe de tom a assistência agita-se cada vez mais, como uma orquestra que seguisse as indicações de dois maestros ao mesmo tempo, cada tocando a sua música. Formam-se pequenos grupos. Aqui uma frase mais violenta, ali mesmo um grito. Ao fundo da sala um homem empurra outro contra a parede, num acto de violência ainda ontem inconcebível e já hoje tornado normal. Como é normal que a esse acto de violência se responda com outro acto violento.
É como se, de um momento para o outro algo se tivesse interposto entre aqueles homens e a sua lógica inabalável. Filhos de um passado que não foi seu, vitimas de um sistema que os satisfaz plenamente, mas o anulou enquanto seres com vontade própria, foi como se, por magia, alguém lhes devolvesse essa vontade e com ela muitas outras coisas.
Uns, os acomodados, pretendem viver uma vida que, de preferência já tenha sido vivida, para assim poderem vegetar indolentemente enquanto fingem que vivem. Os outros, os incomodados pretendem coisas novas, sentir a vida a cada instante, correr o risco das descobertas e do desconhecido.
Mais do que qualquer outra coisa é isto que está em jogo. O pregador e deus têm o significado que têm, mas são pouco mais que catalisadores num processo tão longo como o homem.
O homem foi criado para andar, mas são poucos os que andam; a maior parte rasteja, enquanto uma minoria deseja voar.
Quando o tumulto atingiu proporções difíceis de dominar o sonhador e os que o acompanhavam aperceberam-se do perigo que o pregador podia correr e, aproveitando a confusão, decidiram levá-lo para lugar seguro. Quando o outro grupo se apercebeu disso foi a caos total. As acusações mútuas redobraram de intensidade e em pouco tempo passou-se à agressão. Em pouco tempo generalizou-se uma pequena batalha que só não teve mais consequências, porque os meios disponíveis para as agressões eram poucos. Por fim com bancos partidos, janelas quebradas, tudo num reboliço tremendo os homens foram abandonando lentamente o Centro. Cabisbaixos, alguns envergonhados, mas quase todos decididos a não ceder. Cada qual pensava estar convencido de ter vencido. mesmo sem saber bem o quê.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

Ektom (7) - Sobre a Intolerância

Enquanto abandonava a praça onde se tinha encontrado com o pregador o céptico sentia nascer dentro de si um sentimento surdo de raiva. Como era possível que alguém lhe viesse dizer o que devia ou não fazer? E o que era bom ou mau? Mas o pior era existirem pessoas que aceitavam isso. Não toleraria isso de modo algum.
“Mas o que pretende o homenzinho? Já não bastava ter vindo alterar toda a nossa calma, ainda nos pretende impor ideias absurdas. Deus? Salvação? Mas salvação de quê? Para quê? E depois aqueles traidores a apoiá-lo, a negar a nossa perfeição. Mas isto não fica assim. Não permitirei que um... um... o que é que ele disse que era?... um pregador qualquer venha alterar a nossa calma, a nossa harmonia, seja o que for que ele pretende.”
Na sua cabeça começa a desenhar-se um plano para se ver livre do pregador. É verdade que é a primeira vez que em Ektom não estão todos de acordo sobre alguma coisa, mas isso se for bem aproveitado pode transformar-se num trunfo. Para já é necessário tomar algumas providências.
O céptico decide visitar alguns membros do Conselho com quem sabe poder contar para o apoiarem.
“Então já sabes a novidade? Estiveste na praça?”
“Não estive, mas já sei. Haverá alguém que não saiba? É uma coisa espantosa, não é verdade? Eu que sempre acreditei... ainda não estou refeito do choque.”
“É verdade. Mas já pensaste bem em tudo isto? Já viste o que isto pode representar?”
“Bem, na verdade ainda não tive muito tempo para pensar. Foi tudo tão rápido, tão inesperado... mas... estás com um ar tão preocupado porquê? Não me parece que seja caso para isso.”
“È caso para isso e muito mais. Pois não vês as alterações que isto pode provocar? Não te esqueças que toda a nossa organização assenta no pressuposto de que toda a vida existente é a vida em Ektom. E a nossa é sem dúvida a melhor de todas as vidas e qualquer alteração será sempre para pior. E o que é que este pregador nos trás? Primeiro a confirmação que existe outra vida e quanto a isso já nada podemos fazer, depois vem cheio de ideias estranhas sobre o que devemos ou não fazer, sobre o que está bem e está mal. É evidente que sabemos bem as respostas a tudo isto e não precisamos que um estranho nos venha dizer o que fazer.”
“É possível que tenhas razão.”
“Possível? É claro que tenho razão. Se o pregador conseguir que alguém aceite as suas ideias toda a nossa sociedade se desmoronará como um castelo de areia. E o pior é que parece existirem alguns dispostos a aceitá-lo, por isso é necessário tomar uma atitude o mais rápido possível.”
“E que propões, então?”
“Já deves saber que ficou combinada uma reunião esta noite no Centro para tentar esclarecer a situação e decidir a atitude a tomar. O que proponho é tão simples como isto: temos de eliminar o mal pela raiz, é preciso que o dia de hoje seja esquecido e que o pregador desapareça. Temos de convencê-lo a abandonar Ektom, ainda hoje se possível.”
“E se ele não concordar?”
“Então teremos de encarar a hipótese de tomar medidas mais drásticas.”
“E então que pretendes de mim?”
“Logo à noite vou defender o meu ponto de vista. Sei que existem alguns que não pensam como nós, por isso, vou precisar de todo o apoio possível. Para isso o teu apoio é muito importante. Posso contar contigo?”
“Mas, claro. Saber que podes contar comigo em qualquer circunstância.”
“Então até logo.”
“Até logo.”
Satisfeito consigo mesmo o céptico afasta-se e decide fazer mais algumas visitas. Depois de falar com mais nove pessoas que sabe arrastarão muitos outros consigo, pensa que de momento nada mais pode fazer.
Agora é tempo de amadurecer a estratégia para a reunião. Então surge-lhe uma nova ideia. Porque não visitar o amigo? Durante o encontro na praça foi evidente a separação entre ambos, mas isso não impede que não se possam vir a entender e que não o consiga arrastar para o seu lado. Até porque sabe muito bem que está dentro da razão.
“Então como vão as coisas? Vim aqui para falar contigo e o melhor é ir directamente ao assunto. Sabes bem que sempre fomos amigos e gostava que assim continuasse a ser. Mas aquela tua intervenção em defesa do pregador...”
“Por favor. Não comeces já a criticar uma coisa que tu mesmo disseste que não entendias. Não podes recusar uma coisa que não conheces, que és incapaz de sentir.”
“Ora, não me venhas outra vez com essas tretas. Há muito tempo quando tivemos uma conversa parecida tu mesmo reconheceste que tudo não passava de uma patetice. Não me digas que agora, só porque apareceu este homem as coisas mudaram?”
“Mas é claro que sim. Tens alguma dúvida em relação a isso? Mudaram e de que maneira! Não entendes que a partir de hoje já nada pode ser como dantes? Só o facto de existir uma pessoa estranha ao aldeamento obriga-nos a rever todas as nossas ideias.”
“E tu não vês que isso não é possível? Ao fim de tanto tempo que pretendes que façamos? Depois de tudo o que conseguimos, de toda a paz, calma, segurança, pretendes recomeçar? Para quê? Para procurar aquilo que já tens?”
“Mas não entendes que isso não é possível? Não podes dizer a um homem que ele pode voar e depois proibi-lo de tentar. Não mais será possível controlar as pessoas, não podes impedir que elas pensem. Só pela força conseguirás que se calem e nunca que não pensem.”
“Ainda não tinha pensado nisso, mas se for necessário...”
“Mas tu estás louco? Afinal o que é que se passa contigo? O que é que se passa verdadeiramente contigo?”
O céptico fica em silêncio por largos momentos depois fita-o de uma maneira estranha.
“A verdade é que não sei exactamente. Sinto uma angústia que não devia existir e que não consigo explicar. E o pior é que me sinto incapaz de acompanhar os acontecimentos. E tenho medo. Quando vi aproximar-se da aldeia aquela figura enorme foi como se a meus pés se tivesse aberto um enorme buraco por onde se esvaiu todo o meu sangue. E percebi que precisava aniquilar aquele homem e isso transtornou-me ainda mais. Depois quando entendi que havia pessoas dispostas a entendê-lo isso perturbou-me ainda mais porque percebi que a luta teria de ser também com essas pessoas. E não penses que é cobardia, medo de ver posta em causa toda a nossa vida. Não. Acima de tudo é uma convicção muito íntima, muito forte, de que se não destruirmos aquele homem, ele acabará por destruir-nos.”
“Mas isso é um absurdo. As pessoas é que se destroem a elas mesmas.”
“Acredita no que te digo. Se não tomarmos medidas imediatas vamos acabar mal. Tenho a certeza e farei tudo o que puder para que isso não aconteça. Tudo!”
Pela expressão do seu rosto o sonhador percebe o desespero e sente que aquele tudo é muito mais que uma força de expressão. Mas, porquê?
A acomodação é algo difícil de evitar. Às vezes é um escape, outras um acto inconsciente, a maior parte das vezes simples aniquilação. A incapacidade e o medo conduzem por vezes a caminhos ínvios de onde é cada vez mais difícil de sair à medida que o tempo passa e quanto mais passar maior será a intolerância face à mudança. Em Ektom já passaram milhares de anos.
Em nome da paz e da calma o céptico abafou ao longo do tempo todos os anseios e sentires diferentes. Quando descobriu que podia saltar preferiu cortar as pernas, como lhe podem agora vir dizer que é obrigado a saltar? Não tem medo de trabalhar. Nunca teve nem que tenha de recomeçar mil vezes o mesmo trabalho, mas a simples hipótese de recomeçar interiormente aterroriza-o.
O silêncio mantém-se entre ambos, cada um tentando a ponte de união. Passado algum tempo o céptico olhou o amigo bem nos olhos e, quase numa súplica, repetiu:
“Mas tu não entendes? Não me entendes?”
“Parece-me que começo a entender e tenho pena. Quando alguém chega a uma solução que não admite qualquer alternativa algo de muito grave se passa. E aí é exactamente onde te encontras. Até há pouco tempo não entendia muito bem essa tua radicalização de posições face ao pregador, mas há pouco quando estavas a falar, de repente, percebi tudo. Medo. É tudo uma questão de medo. Medo de ti mesmo. Medo de descobrir que tudo aquilo em que acreditas é falso ou simplesmente não existe.”
O céptico fica por momentos pensativo, comprometido como uma pessoa apanhada a roubar quando tinha a certeza que ninguém o estava a ver. Mas só por breves instantes. Logo de seguida recompôs-se e começou a rir-se num riso forçado e descontrolado.
“Bonito, sem dúvida. Muito engraçado. Mas que imaginação que tu tens. Pois não vês que é precisamente o contrário? Vocês é que têm medo. Senão que outra explicação para a vossa submissão? Como explicas que quase de imediato tenhas aceite e entendido todas as suas ideias? Sim, como explicas isso?... A não ser que a explicação seja outra. Aquelas tuas conversas estranhas... é isso... tudo isto foi planeado e vocês sabiam muito bem que o pregador ia aparecer. Aliás ele veio quando vocês lhe disseram que podia vir. Isto afinal não passa de uma conspiração, uma trama torpe para minar toda a nossa sociedade. Aquelas tuas conversas... bem me parecia impossível que alguém em Ektom pudesse pensar como tu, mas nunca me passou pela cabeça que pudesses estar em contacto secreto com alguém de fora!”
O sonhador começou a ouvi-lo com um sorriso nos lábios, mas esse sorriso foi morrendo à medida que o seu interlocutor falava. O que parecia uma brincadeira de mau gosto era mais grave à medida que era evidente que o céptico acreditava no que dizia. Mas seria possível?
“Mas tu estás louco? Como podes afirmar uma coisa dessas? Como podes acreditar no que estás a dizer? Nunca nas minhas conversas me passou pela cabeça que isto pudesse acontecer. A sua presença vem dar força ao que eu pensava, mas nada mais e tu sabes isso muito bem. Até porque se assim fosse sou suficientemente esperto para preparar as coisas de modo o poder controlá-las o que, como é óbvio, não está a acontecer. É muito grave o que estás a afirmar, por isso ou provas o que estás a dizer ou retiras imediatamente o que disseste.”
As últimas palavras foram pronunciadas quase sem fôlego, tal a veemência das mesmas. Eram uma manifestação de repulsa, mas não só. Era a certeza que a partir daquele instante o confronto era inevitável.
“A mim parece-me o contrário. Tu é que tens de provar que a ligação não existe, que não foi tudo preparado. Tu que entendes tudo tão bem ‘e que terás de explicar. Depois de dizer ao Conselho tudo o que penso todos irão concordar comigo e depois veremos.”
Não admito que continues a insultar-me com as tuas insinuações torpes. E quanto ao resto não te preocupes que sei defender-me. Agora desaparece antes que perca por completo a paciência. Se fosse pensava muito bem se não terás algum problema grave a afectar-te.”
No ar fica a ideia que os dados estão irremediavelmente lançados e isto é o inicio de uma nova era em Ektom. Mesmo que materialmente nada se tenha modificado, emocionalmente tudo se modificou da pior maneira possível, uns para um lado e outros para o lado oposto. Instaladas a dúvida, a desconfiança, a crença/descrença cada um sente a necessidade de radicalizar as posições, de provar que ele é que está correcto. Nuns casos a insegurança já existia de forma latente, consequência de necessidades inconfessadas e perigosamente avolumadas no interior de cada um. Noutros brotou naturalmente naqueles que sentem os alicerces perigar.
Assumida a insegurança estão criadas as condições para a tentativa sempre renovada de domínio de uns homens pelos outros.
Assumida a incerteza Ektom volta a estar viva.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Afinal há Caminho

…um passo em frente, dois passos atrás…


Já não é a primeira vez que um governante chega a uma conclusão semelhante, só que nunca houve o atrevimento de o dizer!
Agora não só foi dito como isso foi feito sem meias palavras, de forma acertiva.
Primeiro pensei tratar-se de um lapso de linguagem, género desculpa esfarrapada para a incompetência.
Depois pensei que era simples subserviência, género mais papista que o papa, vamos lá apoiar e justificar o chefe.
Há terceira percebi que não e que era mais profundo, género vamos lá profissionalizar a coisa, criar mesmo um organismo (ou dois) de apoio.
Não se tratou de um lapso, é a política estúpido.
Porque afinal a solução é simples – se não estão bem, mudem-se.
É tão fácil fazer politica!
Pena é que a mais das vezes o povo seja burro e não a entenda.
Mas mesmo para esses casos eis a solução – muda-se o povo!
EMIGREM!

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

EKtom (6) - Sobre a Dúvida


O grupo que seguiu o sonhador era o mais falador, aquele a quem os recentes acontecimentos mais tinham afectado. Cada um sentia que o pregador tinha estado a falar para si; cada um sentia que o pregador tinha estado a soltar amarras que nem sequer sabiam que existiam e tudo o que tinha estado recalcado ao longo de tanto tempo, quebradas as amarras, saia agora em catadupa.
O sonhador, esse limitava-se a ouvir. O facto de há muito tempo acreditar na possibilidade de uma vida diferente atenuou o choque mas não foi suficiente para clarificar as coisas. A vida em Ektom sempre assentou na evidência de um mundo sem carências e em certezas indubitáveis e a chegada do pregador punha tudo isto em causa. E foi desde logo evidente que a partir daquele momento nada poderia ficar como dantes. Ao contrário de alguns o sonhador não considerava muito importante saber quem era o pregador e de onde vinha. As questões passaram a ser muito mais vastas : “Quem somos? Para onde vamos?”.
Ao pensar no que a perfeição de Ektom transformou os seus habitantes, o sonhador sente uma estranha sensação de falsidade. A máxima ektomiana “quem tudo tem, nada deseja”, soa-lhe a falso. No fundo não passa de um manto entorpecedor que os tornou iguais ao que eram no passado e contra o que tanto lutaram. De forma diferente, sem mazelas, quezílias sociais ou necessidades materiais, mas assim mesmo limitados na sua condição essencial de seres livres e criativos. No fundo toda a sua vida estava programada desde o nascer ao morrer e o que acontecia entre ambos não era a vida, mas o cumprimento de um programa.
Quando se deu conta estava em frente a sua casa e à sua volta havia um silêncio estranho, enquanto todos os rostos se voltavam para si numa interrogação muda. Uma interrogação de quem está pronto, mas não sabe para quê. Nesse instante percebe que a sua simples intervenção no encontro com o pregador fez dele um chefe. Sem saber eainda menos sem querer descobriu-se chefe eleito de um grupo de ektomianos, coisa tanto mais espantosa quando, em muitas gerações anteriores, nunca em Ektom tinha existido um chefe, alguém que por si decidisse ou ordenasse o que quer que fosse.
“Porque estão todos a olhar para mim com essa cara?”
“Nada. Estamos à espera.”
“À espera. Alguma coisa vai acontecer. Não acreditamos que não vá acontecer nada.”
“E porque há-de acontecer? É melhor não estarmos a inventar um caso onde não existe nada.”
Mentira em que nem ele acredita, apesar de alguns receios.
Medo?
Temor em relação ao que possa acontecer depois de tantos anos de calma e letargia ociosa?
Um pouco de tudo e a certeza de que algo tem de acontecer.
“É verdade que algo se modificou e bem provável que alguma coisa possa acontecer, mas neste momento pouco ou nada há a fazer. Aguardemos pela reunião de logo à noite. Entretanto meditemos. Que cada um olhe bem para dentro de si e procure traduzir com a maior clareza possível os seus sentimentos.”
“E pensas que isso é fácil? Há quase duzentos anos que estou convencido que o mundo é esta aldeia e num só segundo toda a crença foi destruída. Pensas que é fácil meditar com calma sobre os sentimentos que nos avassalam?”
“Eu sei que não é fácil, mas, neste momento, que outra coisa pudemos fazer?”
Por instantes o silêncio volta ao grupo. Não porque não tenham que dizer, mas porque a catadupa de sentimentos recentes é tal que não conseguem encontrar as palavras adequadas.
Um aldeão que se encontra mesmo em frente do sonhador quebra o silêncio.
“Parece-me não restarem dúvidas que algo está para acontecer e que é preciso fazer alguma coisa. Mas o quê? É isso que é preciso descobrir.”
Antes de tentar responder o sonhador fica por momentos pensativo e é notória a sua apreensão.
“Infelizmente penso que tens razão. Mas é importante ter bem presente o que pode representar um acto menos pensado. Ficou claro que alguns pensam o contrário de nós em relação ao pregador e às suas palavras. Temos que ser muito cuidadosos de modo a evitar cisões inoportunas. Todas as atitudes que tomarmos têm de ser muito ponderadas antes de serem postas em prática.”
“Mas não podemos deixar de fazer o que acharmos mais correcto. Esta vida sem sentido que temos levado não pode continuar. Não desejamos que a discórdia se volte a instalar em Ektom ao fim de tanto tempo, mas também não podemos deixar fugir a oportunidade de nos manifestarmos. Isto não significa que depois de esclarecidos os nossos pontos de vista não possamos chegar a uma solução de compromisso. O que não podemos é agrilhoar por mais tempo o que sentimos dentro de nós.”
Murmúrios de aprovação acompanharam as últimas palavras. Formavam um grupo à deriva, eram como um bando de prisioneiros que passaram toda a vida na prisão e agora, de repente, descobriram que a prisão não tinha muros nem grades; por isso há nesta nova sensação de liberdade tantos sentimentos desencontrados, tanta vontade de gritar e assumir as consequências, ainda se acompanhada pelo medo saboroso das primeiras sensações. O sonhador sente isso como ninguém e, por isso mesmo, é o mais cauteloso de todos. Sabe que nada pode ser como dantes, mas teme que as alterações possam ser demasiado profundas e possam originar um afastamento de consequências irreparáveis. Porque, mesmo na perfeição, existem uns mais perfeitos que outros.
A perfeição!
Poderá a perfeição ser mais que um estado de espírito que não se reconhece senão a si mesmo? Tentar entender a perfeição fora de si será sempre como tentar estabelecer limites para o infinito. No entanto o homem tem sempre que optar por impor um limite, seja ele qual for, porque a cada momento , é obrigado a esbater-se entre a necessidade da perfeição e a sua impossibilidade, sob pena de perecer.
A perfeição só será possível pela transformação do homem em qualquer outra coisa!
O vazio da perfeição em Ektom como que brota à luz dos novos acontecimentos. O sonhador sabe isso melhor que ninguém, mas também sabe que todo o cuidado é pouco para evitar confrontos no fim dos quais de nada adianta saber de que lado estava a razão. “Acima de tudo temos de fazer todos os esforços para manter a união entre todos, pensem ou não como nós. Neste momento podem estar em causa coisas muito mais importantes. Se for necessário cada um terá que abdicar um pouco.”
“Mas também é necessário estar atento ao que farão os que nada querem mudar. O nosso querer não é suficiente.”
“Isso só pode ser motivo para estarmos mais atentos que nunca. Depois é preciso meditar bem na pessoa do pregador. Não sabemos nada dele, nem de onde vem, ainda que isso não me pareça o mais importante comparado com o que significa a sua presença. Há ainda muita coisa por esclarecer e o facto de as suas ideias terem vindo de encontro às de muitos de nós, isso só por si não basta. Por isso temos que ter muito cuidado. Apesar da ajuda preciosa é pela nossa cabeça que temos de pensar. Agora o melhor é irmos jantar e preparar-nos para a reunião de logo à noite. Até logo!”
Dito isto o grupo desfez-se e cada uma daquelas almas inquietas sentiu pela primeira vez a angústia da liberdade de pensar. Pela primeira vez os seus pensamentos não eram os de todos os dias. Alguns sentiam mesmo que pensavam pela primeira vez num processo que há bem pouco tempo seria absurdo e sem fundamento.
Quaisquer inquietações anteriores eram aberrações numa sociedade que a si mesma se considerava perfeita. É verdade que não havia repressão que essa era exercida por cada um sobre si mesmo. A ansiedade e o desejo se surgiam eram naturalmente anulados como algo que não podia existir e portanto não existia.
É mais um entardecer em Ektom e o sonhador sente-se invadir por uma estranha sensação de liberdade. Só que hoje nada faz para se conter. Pela primeira vez o seu espirito alimenta o fogo que o consome. É um fogo reconfortante, como se estivesse a queimar as suas feridas e o sonhador tem a certeza que aquele não é um entardecer como tantos outros. Sente agora como era difícil alguém entendê-lo; há coisas que não são para entender, ou se sentem ou não. E este é o grande perigo. Não é o de as pessoas não se quererem entender, mas tão só o de não puderem.
Este não é só mais um entardecer em Ektom; pela primeira vez um dia não foi igual ao anterior.